Em França, quem vende uma casa tem de entregar até doze diagnósticos técnicos antes de assinar seja o que for. Na Bélgica, a instalação elétrica tem de ser controlada por um organismo acreditado. Na Dinamarca, quase nenhuma casa muda de mãos sem um relatório de estado. Em Portugal, desde janeiro de 2024, nem a câmara municipal verifica se o que se vende corresponde ao que foi licenciado.

Este artigo explica como chegámos aqui, o que fazem os outros países europeus e porque é que, em Portugal, a única pessoa que verifica alguma coisa antes da escritura é o comprador — se quiser.


1. O que mudou em 2024

Até ao fim de 2023, uma escritura de compra e venda de habitação exigia dois documentos que funcionavam como um filtro mínimo de qualidade: a licença de utilização e a ficha técnica de habitação. Não eram inspeções, mas obrigavam o vendedor a provar que o imóvel tinha sido aceite pela câmara e descreviam as suas características construtivas.

O Decreto-Lei n.º 10/2024, de 8 de janeiro — o chamado "Simplex Urbanístico" — eliminou essa exigência. A intenção era desburocratizar. O efeito prático foi outro: a verificação de conformidade entre o imóvel construído e o projeto licenciado deixou de ser feita por qualquer entidade pública no momento da venda.

Isto tem uma consequência que raramente é dita com clareza: o risco transferiu-se integralmente para o comprador. Uma marquise fechada sem licença, um sótão transformado em quarto, uma área real diferente da caderneta predial — nada disto é detetado por ninguém no processo. O notário confere identidades e registos, não paredes.

Portugal é, tanto quanto conseguimos apurar, o único país europeu que nos últimos anos reduziu o nível de verificação na transação imobiliária.

2. O que fazem os outros

Convém desfazer um mito: em nenhum país europeu a inspeção técnica contratada pelo comprador é legalmente obrigatória. O que varia — e varia muito — é o que se exige ao vendedor e quão caro fica, para o comprador, não investigar.

França — o regime mais exigente

O vendedor francês tem de anexar à promessa de venda um Dossier de Diagnostic Technique (DDT), que pode reunir até doze documentos previstos no Código da Construção: chumbo, amianto, térmitas, estado da instalação elétrica e de gás, desempenho energético, medição Carrez, riscos naturais e tecnológicos, entre outros. Cada diagnóstico tem prazo de validade e é feito por técnico certificado e segurado. Sem o dossier completo, a venda pode ser anulada.

Mesmo assim, o DDT não é um levantamento do estado do edifício. Não cobre fissuração, humidades, cobertura ou canalização. Protege contra riscos sanitários, não contra obras mal feitas.

Bélgica — eletricidade e solo obrigatórios

Na Bélgica, qualquer venda de habitação exige um atestado de solo por parcela cadastral, o certificado energético (PEB/EPC), a informação urbanística e — para instalações anteriores a 1 de outubro de 1981 — um controlo da instalação elétrica feito por organismo acreditado, a expensas do vendedor. Se a instalação for reprovada, o comprador tem 18 meses para a regularizar. Segundo a rede Century 21, nove em cada dez instalações de casas à venda não estão conformes.

Dinamarca — voluntário na lei, universal na prática

O modelo dinamarquês é o mais interessante para quem pensa no mercado português. Desde 1996, o vendedor só fica libertado da responsabilidade por defeitos físicos se o comprador receber, antes de assinar, um relatório de estado do edifício (tilstandsrapport), um relatório da instalação elétrica e uma proposta de seguro de transferência de propriedade. Nada disto é obrigatório — mas um vendedor que não o faça responde pelos defeitos durante dez anos. Resultado: a esmagadora maioria das transações tem relatório.

Suécia — o dever de investigar

A lei sueca impõe ao comprador um dever estrito de investigação (undersökningsplikt). Quem não inspeciona não pode depois reclamar defeitos que uma inspeção adequada teria detetado. A inspeção não é obrigatória; simplesmente, quem não a faz fica sem proteção.

Países Baixos — obrigatória quando há garantia pública

A bouwkundige keuring é obrigatória para hipotecas com garantia nacional (NHG) e os bancos exigem-na em casas antigas ou com sinais de degradação. O contrato-modelo de compra inclui por defeito uma cláusula resolutiva por inspeção; quem a retira tem de o declarar por escrito. Custa entre 300 e 750 euros.

Espanha — verificação do edifício, não do fogo

Em toda a Espanha é obrigatório o certificado energético. A cédula de habitabilidade só é exigida em nove comunidades autónomas. A Inspección Técnica de Edificios (ITE) aplica-se a edifícios com mais de 45 anos (30 em Madrid), mas é uma inspeção do edifício, contratada pelo condomínio — não diz nada sobre o estado do apartamento que se compra.

Alemanha, Itália, Reino Unido — pouca lei, muita prática

Nenhum destes países tem inspeção estatutária. A Alemanha exige o certificado energético; a Itália exige conformidade urbanística e certificado energético, com prazos para reclamar vícios ocultos contados em dias. No Reino Unido, só a avaliação do banco é obrigatória — mas o survey independente é prática corrente há décadas, com uma profissão regulada (RICS) e três níveis de relatório padronizados.

3. O padrão

Quando se põe tudo lado a lado, aparece um padrão claro:

País Diagnósticos obrigatórios ao vendedor Inspeção do comprador Consequência de não inspecionar
França Até 12 (DDT) Voluntária Tribunais esperam diligência do comprador
Bélgica Elétrico, solo, energético, urbanístico Voluntária Comprador assume regularização elétrica
Dinamarca Nenhum por lei Voluntária, quase universal Vendedor responde 10 anos se não houver relatório
Suécia Energético Voluntária, de facto obrigatória Comprador perde direito a reclamar
Países Baixos Energético Obrigatória com NHG Cláusula resolutiva por defeito no contrato
Espanha Energético, ITE (edifício), cédula (algumas regiões) Voluntária Prazo curto para vícios ocultos
Reino Unido Nenhum Voluntária, prática corrente Caveat emptor
Portugal Certificado energético Voluntária, rara Vícios ocultos (arts. 913.º ss. CC), prova difícil

Os mercados mais maduros não resolveram o problema com uma lei que obriga a inspecionar. Resolveram-no de duas maneiras: ou obrigam o vendedor a revelar (França, Bélgica), ou tornam caro não investigar (Dinamarca, Suécia). Portugal não faz nem uma coisa nem outra.

4. Porque é que em Portugal ninguém verifica

Há três razões, e nenhuma delas é a falta de problemas nas casas.

Primeira: a cultura do "está tudo bem". Em Portugal, pedir uma inspeção antes de comprar ainda é lido como desconfiança em relação ao vendedor ou ao agente. Em Londres ou Copenhaga é apenas o passo seguinte depois da oferta aceite.

Segunda: ninguém no processo tem incentivo para verificar. O agente imobiliário é pago quando a venda se faz. O banco avalia para garantir o crédito, não para proteger o comprador — a avaliação bancária é uma estimativa de valor, não um diagnóstico técnico. O notário confere documentos. O vendedor, compreensivelmente, não vai apontar os problemas da sua própria casa.

Terceira: a lei portuguesa protege mal quem não investigou. O regime dos vícios ocultos existe, mas exige provar que o defeito já existia, que não era detetável e que foi reclamado nos prazos legais. Na prática, um comprador que não inspecionou chega ao tribunal com pouca mais prova do que a sua palavra. Quem inspecionou tem um relatório datado, medições e fotografias.

5. O que isto significa para quem compra

Se está a comprar casa em Portugal, a situação é esta: o Estado deixou de verificar, o mercado nunca verificou, e a lei pune quem não verifica. Não há nenhuma entidade entre si e a escritura cujo trabalho seja garantir que o que compra corresponde ao que lhe foi descrito.

Isto não é um argumento para não comprar. É um argumento para fazer o que os compradores dinamarqueses, suecos, holandeses e britânicos fazem há décadas sem que ninguém os obrigue: antes de assinar o contrato-promessa, pôr alguém do seu lado a olhar para a estrutura, a cobertura, a eletricidade, a canalização, a humidade e a conformidade documental — e a dizer-lhe quanto custa resolver o que encontrar.

Um relatório de inspeção não serve para desistir da compra. Na maioria dos casos serve para a fazer bem: negociar o preço com números fundamentados, exigir obras ou cláusulas no CPCV, e saber exatamente onde vai o dinheiro nos primeiros 24 meses.

Em Portugal, essa pessoa não é obrigatória. Por isso mesmo, é a única que vai verificar.

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Este artigo tem fins informativos e reflete a leitura do autor sobre os regimes europeus e portugueses à data de publicação. Não constitui aconselhamento jurídico. Para questões legais sobre uma transação concreta, consulte um advogado ou solicitador.

Fontes

  • Notaires de France — Diagnostics techniques immobiliers: notaires.fr
  • Dewaele — Certificats obligatoires pour vendre (Bélgica): dewaele.com
  • La Libre — Électricité non conforme dans 90% des maisons mises en vente: lalibre.be
  • Justitsministeriet (DK) — Kommissorium for Udvalget om huseftersynsordningen: ft.dk
  • Nordisk Försäkringstidskrift — Større forbrugerbeskyttelse ved hushandel: nft.nu
  • Homefinance.nl — Bouwkundige keuring nodig: homefinance.nl
  • Tweede Kamer — Voorbehoud van financiering en bouwkundige keuring: officielebekendmakingen.nl
  • HelpMyCash — Documentos obligatorios para vender un piso en toda España: helpmycash.com
  • Janus Hermes — The Property Inspection Gap in 2026: janushermes.com
  • Janus Hermes — Hidden Defects After Buying a Home Abroad: janushermes.com
  • Homestra — Buying Property in Another European Country: homestra.com
  • Decreto-Lei n.º 10/2024, de 8 de janeiro (Diário da República)